
A terceira grande conferência do Fórum Mundial de Educação de Santa Maria aconteceu na manhã deste sábado (31), com o tema Educação e Ética Planetária. Os participantes lotaram o ginásio principal do Centro Desportivo Municipal (CDM) para ouvir Carlos Alberto Torres, Maria Benites, Leslie Toledo e Tânia Guerra. Cada um dos conferencistas falou por cerca de meia hora. A coordenação da mesa foi feita por Cléia Tonin e Décio Auler foi o relator.
A professora Maria Benites iniciou a atividade. Benites é coordenadora do Doutorado Internacional em Educação da Universidade de Siegen, na Alemanha, diretora internacional do Instituto Vygotskij. A professora usou como base para a sua fala duas cartas, a primeira, “Talvez Sejamos Irmãos”, resposta do Chefe Índio Seattle à proposta de aquisição das terras onde vivia a sua tribo ao Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce, em 1854; e outra de um menino de 15 anos, falando sobre o que é o futuro. A primeira carta é conhecida no mundo todo como referência ecológica e para Benites, ambas as cartas são mostras do que é ética planetária. A questão foi sobre os valores e as regras que permitem que a sociedade se perpetue. A ética está relacionada com a vida, a ética é a vida. Benites ressaltou a necessidade de as pessoas serem conscientes de si e dos outros, pois assim seriam sujeitos éticos que buscam no outro suas semelhanças. Seria um ideal de sujeitos coletivos. Citando o filósofo Espinosa, disse que a ética se baseia em emoções, do que vem de dentro de si. “A ética é uma prática, e somente assim os homens podem encontrar a virtude da paixão à ação”, complementa. Para finalizar, Maria Benites falou da necessidade de bem comum ao planeta. Fez referência ao Movimento dos Sem Terra relacionando-o com a Pedagogia da Terra, de Gadotti. Citou a Feira de Economia Solidária e afirmou a importância da política para as questões éticas planetárias. Segundo ela, a ética é política, se não há política não há ética e vice-versa.
A segunda conferencista, Tânia Guerra, lembrou a origem do Fórum Mundial de Educação, em 2001, junto ao Fórum Social Mundial, no qual 11 mulheres plantaram a idéia de que um outro mundo é possível. A educação não transforma o mundo, mas a transformação não é possível sem educação. Como exemplos de educação e ética planetária, citou a Pastoral da Terra e o Projeto Esperança - Cooesperança. Lembrou da abertura do Fórum Mundial de Educação, no qual a Irmã Lourdes Dill, coordenadora do Projeto, citou um provérbio africano, “muitas pessoas pequenas, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”. Segundo Guerra, o provérbio é adequado com a relação entre educação e ética.
A professora ainda fez uma crítica ao tratamento dado aos educadores hoje, e à “enturmação”. A escola é originalmente um lugar de paz e meditação, atualmente os professores não são bem remunerados, necessitam ter mais de um emprego. Segundo ela, isso vai contra o propósito da escola, que é ser um lugar de reflexão. Dessa forma, os professores não ousam mudar. Já as turmas superlotadas refletem na atenção dos professores para cada aluno. Segundo ela, os professores não teriam tempo para perceber e analisar as mudanças e os alunos não teriam espaço para desenvolver suas características e talentos individuais. Tânia Guerra finalizou a sua fala com a idéia de preservação da felicidade, que seria uma decisão firme de se fazer no cotidiano ações por um outro mundo possível de Educação e Economia Solidária.
Leslie Toledo, paranaense, doutoranda de estudos sobre a mulher pelo Instituto Universitário de Valência enfatizou a questão de gênero. A ética é um saber que tem uma raiz grega de 20 séculos, constituída por filósofos homens. Se é um saber é porque pode ser ensinado e aprendido, já que a ética não diz como as coisas são, mas diz como as coisas devem ser. Esta é uma construção conjunta, com base reflexiva, e se dá no cotidiano da vida, das ações, em todos os momentos.
Segundo Toledo, as igualdades entre homens e mulheres passam por uma educação na perspectiva de gênero. Ela fez uma consulta com os participantes: entre estes, a maioria era mulher e dessas, a minoria teve oportunidade de chegar a algum cargo de direção em escolas. A conferencista foi aplaudida ao afirmar que homens e mulheres não devem dividir as atividades domésticas, e tampouco os homens devem ajudar na casa, mas que as atividades devem ser compartilhadas. Ela chegou a supor uma falência múltipla do sistema mundial caso todas as mulheres entrassem em greve por uma semana. Enfim, todas as colocações para se ter uma visão mais positiva da mulher.
Carlos Alberto Torres foi o último a falar e animou os participantes, fazendo-os levantar da cadeira e mexer o corpo por alguns instantes, para amenizar o frio que fazia durante o evento. Torres é professor da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) e pertence à direção do Instituto Paulo Freire. Ele começou respondendo como é para um professor do Instituto Paulo Freire morar nos Estados Unidos. “É, no mínimo, contraditório”, comenta. Disse que se sente triste e angustiado por morar num lugar tão burocrático. O capitalismo é um meio de interesses humanos destruírem os interesses humanos, de o poder apoderar-se da liberdade do outro. Segundo ele, o mundo precisa dos princípios de ética planetária e da multiculturalidade, onde as diferenças serviriam como instrumentos de uma cultura humana.
Torres citou Paulo Freire e refletiu sobre características necessárias à educação, como ensinar com respeito, incentivar a autonomia, a criatividade, a curiosidade, a autoconfiança e o amor dos estudantes. Torres falou das algumas idéias do Instituto Paulo Freire. “Os sonhos se constroem na luta, na planetarização da educação, onde os cidadãos controlam a globalização e não o contrário. As melhores condições no ensino não garantem uma melhora na educação. Além de matricular o aluno, é preciso matricular também os seus sonhos. Assim como um novo mundo é possível, novos sonhos são possíveis”.
Após as falas, Cléia Tonin, coordenadora da mesa, fez agradecimentos e encaminhou os participantes para a marcha cultural.
Colaboração Janaina Cruz de Oliveira - UFSM